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Do volante ao pódio: a história de superação do motorista e corredor Lucas Vidal

  • Foto do escritor: Tiago Queiróz
    Tiago Queiróz
  • 23 de mar.
  • 3 min de leitura


A rotina começa antes do sol nascer. Entre o barulho do motor do ônibus, quilômetros de asfalto e treinos intensos, Lucas Vidal, 29 anos, constrói diariamente uma trajetória marcada por esforço, disciplina e superação. Nascido em Salvador e criado no bairro de Alto de Coutos, no subúrbio ferroviário, ele carrega no corpo e na memória as marcas de uma infância difícil — e a força para transformar a própria história.


Filho de pais separados, Lucas foi criado pela avó, figura central em sua formação.


“Tive uma infância muito dura, sem meus pais por perto. Mas minha avó e meu primo nunca deixaram faltar nada”, relembra. Ainda jovem, encontrou no futebol um caminho possível. Chegou a treinar na base de um time local e teve passagens por clubes como a Catuense e uma equipe do interior de São Paulo.

O sonho, no entanto, foi interrompido cedo demais. Aos 15 anos, com a morte da avó, Lucas precisou fazer uma escolha difícil: abandonar o esporte para trabalhar e garantir o sustento.


“Chega uma hora que você precisa decidir. Eu precisava colocar comida dentro de casa.”

O primeiro emprego foi em uma padaria do bairro, carregando lenha de madrugada para alimentar o forno. A rotina era pesada: acordava às 3h para começar o trabalho às 4h.


“Não era carteira assinada, mas sou muito grato. Foi onde comecei a amadurecer.” Com o tempo, passou pelo balcão e pela produção, permanecendo no local por sete anos.



Mesmo diante das dificuldades, Lucas resistiu às tentações do caminho fácil.


“Tive oportunidade de entrar na vida errada, mas escolhi honrar minha avó”, afirma.

Depois da padaria, surgiu uma chance que mudaria sua vida: um amigo o indicou para uma vaga na empresa Plataforma Transporte. Sem experiência, foi contratado como ajudante de eletricista após uma entrevista em que sua história falou mais alto que o currículo.


Ali, começou uma nova etapa. Aprendeu a profissão, tirou carteira de habilitação e, aos poucos, evoluiu até se tornar motorista de ônibus — profissão que exerce até hoje.





Foi também nesse período que o destino apresentou um novo caminho: a corrida de rua. O convite veio de um amigo atleta, que o incentivou a participar de um treino em Arembepe.


“Eu nunca tinha corrido, nem tênis eu tinha. Ele me arrumou tudo e fomos correr 5 km.”

O interesse virou prática — e foi na Tuchê Assessoria Esportiva que Lucas deu seus primeiros passos mais estruturados na modalidade.


“Fui lá fazer um teste e Tuchê me chamou para treinar com ele. Foi onde comecei de verdade. Ele passou minhas primeiras planilhas, e eu fui evoluindo aos poucos”, conta.

Mesmo com pouco tempo e uma rotina exaustiva de trabalho, Lucas não desistiu.


“Trabalhava muito, chegava cansado, às vezes só conseguia treinar uma vez por semana. Mas continuei.”

A virada de chave aconteceu quando passou a treinar na GM Assessoria Esportiva, no subúrbio de São Tomé de Paripe, sob orientação do treinador George Mercês. Foi ali que Lucas mudou completamente sua relação com o esporte e passou a enxergar a corrida de forma profissional.


“George viu meu potencial e disse que eu precisava me dedicar. Ele me cobra muito, aponta onde preciso melhorar, e nunca me cobrou nada por isso”, destaca.

Com treinos mais intensos e acompanhamento próximo, Lucas passou a rodar cerca de 140 km por semana.


Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Em poucos meses, já disputava pódios na classificação geral. Em 2024, subiu ao pódio na Corrida da Fruticultura. Já em 2025, conquistou um feito expressivo ao terminar em terceiro lugar geral na Maratona Internacional de Sorocaba, sendo o melhor atleta baiano na prova.


Mesmo com a ascensão, o caminho não foi fácil. Lucas enfrentou dificuldades para pagar inscrições, comprar equipamentos e manter acompanhamento profissional.


“Comecei com um tênis de passeio emprestado. Não tinha dinheiro para suplementação, fisioterapia, nada.” Ainda assim, persistiu.

Hoje, colhe os frutos do esforço. Com mais de 80 mil seguidores nas redes sociais, conquistou apoio de profissionais como fisioterapeuta e nutricionista e segue em busca de novos patrocinadores para avançar na carreira.


Fora das pistas, encontra força na família. Pai da pequena Luna, ele destaca o papel fundamental da esposa, companheira há mais de 12 anos.




“Ela está comigo desde o começo. Me apoia em tudo, cuida da nossa filha para que eu possa treinar.”

A rotina segue intensa: treinos pela manhã, sessões de pilates, jornada como motorista e mais treinos à noite. Um ritmo puxado, mas necessário para quem sonha alto.


Entre os próximos desafios estão provas importantes como a Maratona Internacional de Porto Alegre, além de competições em Florianópolis, Argentina e a Maratona de Salvador.


O objetivo é claro: entrar na elite da corrida de rua e viver do esporte. Mais do que isso, Lucas também quer se formar em Educação Física e inspirar outras pessoas com sua trajetória.


“Eu acredito que ainda vou chegar lá. Minha história prova que, mesmo com dificuldade, é possível vencer — basta não desistir.”



 
 
 

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